A saúde mental dos servidores do Poder Judiciário Federal ganhou um diagnóstico científico incontestável e alarmante. A psicóloga clínica Ana Paula Gomes Esposito, servidora da Coordenadoria de Atenção à Saúde (Coas) do TRE-SP, defendeu no Instituto de Psicologia da USP a tese de doutorado “Trajetória de trabalho dos técnicos judiciários na contemporaneidade e repercussões na saúde mental destes servidores”.
Apresentado no TRE/SP, na Semana de Combate ao Assédio 2026, o estudo — baseado em 50 entrevistas sobre as trajetórias profissionais de técnicos judiciários — serve como um espelho e um alerta urgente para a base do Sintrajurn e de todo o Judiciário Federal.
A pesquisa aponta que, historicamente, o concurso público sempre foi visto como um refúgio contra a precariedade, o desemprego e a desigualdade de gênero do setor privado. No entanto, ao ingressar na instituição, o servidor se depara com um cenário de desgaste crônico:
• Casos antigos associados ao tédio ou ao estigma social da carreira foram completamente substituídos por uma explosão de crises de ansiedade, sobrecarga severa e síndrome de burnout.
• A “importação” cega de ferramentas de gestão de desempenho da iniciativa privada, espremida dentro das amarras burocráticas tradicionais do serviço público, sufoca a autonomia e esvazia o sentido do trabalho.
• Na Justiça Eleitoral, a pressão bienal das eleições eleva vertiginosamente o absenteísmo por transtornos mentais e comportamentais devido a jornadas exaustivas.
O motor da frustração: mesmas atribuições, salários diferentes
O achado mais contundente da tese — que dá sustentação científica à necessidade de reestruturação de carreira — toca diretamente na ferida de supostos desvios de funções e da injustiça remuneratória dentro dos tribunais:
“Essa diferença salarial entre Técnico e Analista, mesmo os dois realizando a mesma atividade na prática, é um problema do Poder Judiciário como um todo.”
A pesquisa trouxe depoimentos que afirmam que, no cotidiano das secretarias e cartórios, “técnicos e analistas desempenham exatamente as mesmas atribuições práticas”. Como a remuneração é rigidamente atrelada ao cargo do concurso e não ao trabalho real, essa disparidade salarial e a falta de uma progressão justa atuam como fatores crônicos de desmotivação, gerando um profundo sentimento de estagnação e desinvestimento subjetivo.
Como contra-ataque a essa precariedade subjetiva, a tese de Ana Paula Esposito identifica fatores essenciais de proteção à saúde do trabalhador:
• A manutenção de relações saudáveis, vínculos longevos e empatia entre os colegas de trabalho funciona como o principal escudo coletivo contra o sofrimento psíquico.
• A profissionalização e a transparência institucional só geram saúde mental se contarem com a participação ativa e reflexiva dos servidores na construção das metas, rejeitando modelos opressivos e inalcançáveis.
Realidade compartilhada: estudo no TRE-MA confirma o “Frankenstein gerencial” nos tribunais
A tese defendida na USP ganha um respaldo científico ainda mais amplo quando contrastada com uma pesquisa anterior realizada pelos pesquisadores Luiz Gustavo Carvalho Assis e Carla Vaz dos Santos Ribeiro no Tribunal Regional Eleitoral do Maranhão (TRE-MA). O artigo, intitulado “Fui aprovado em concurso público. E agora?”, analisou a dinâmica de prazer e sofrimento de Analistas Judiciários da área administrativa daquele tribunal e revelou um cenário perfeitamente idêntico ao que estudo de Esposito: as reformas administrativas criaram um modelo de gestão híbrido nas instituições públicas, que mescla elementos do fordismo, taylorismo e toyotismo. Essa engrenagem exige servidores ultra-autônomos, empreendedores e focados em metas, mas opera de forma perversa: impõe a pressão do setor privado sem oferecer nenhuma de suas contrapartidas, como salários equivalentes, autonomia real ou planos de carreira dinâmicos.
A pesquisa detalha como a organização do trabalho sufoca o servidor em duas frentes distintas. Nos cartórios e zonas eleitorais, o sofrimento é gerado pela sobrecarga decorrente da falta de pessoal, infraestrutura predial precária e prazos sufocantes impostos pelo CNJ (com servidores acordando no meio da noite por conta de prazos). Já na Secretaria (sede), o desgaste provém da execução de tarefas meramente burocráticas, mecânicas e repetitivas, que subutilizam as variadas formações acadêmicas da categoria e provocam uma dolorosa falta de sentido no trabalho.
Um dos grandes méritos do estudo maranhense é desconstruir o preconceito social de que o servidor público se acomoda por preguiça. Os autores provam que o desengajamento, a indiferença e o imobilismo são, na verdade, estratégias defensivas coletivas e individuais contra a falta de reconhecimento e o sofrimento psíquico gerados por uma estrutura que não dá espaço para a criatividade. Assim como verificado em São Paulo, o estudo conclui que o equilíbrio e o prazer só resistem nos tribunais por dois motivos: quando o trabalhador consegue usar sua inteligência prática para enxergar um resultado social útil no que faz e no acolhimento mútuo por meio das amizades construídas entre os colegas.
Para o Sintrajurn, os dados dos estudos de Esposito e de Assis e Ribeiro embaçam definitivamente o discurso oficial de que o não há problemas sérios e urgentes na carreira e que adoecimento é seria uma fraqueza individual. Trata-se de uma violência institucionalizada pelo modelo gerencial de maximização da eficiência. Exigir a rediscussão da carreira, o fim do desvio de atribuições disfarçado e uma política remuneratória justa são passos urgentes para preservar a vida e a dignidade de quem carrega o Judiciário nas costas.
Onde ler as pesquisas completas:
Tese de Doutorado (Esposito, 2026 – TRE/SP): CLIQUE AQUI
Artigo Científico (Assis & Ribeiro, 2017 – TRE/MA): CLIQUE AQUI





